Por que a ansiedade pode diminuir a confiança em nossas próprias decisões?

Você já terminou uma tarefa que parecia ter realizado bem, mas, logo depois, começou a procurar sinais de que havia errado? Talvez tenha revisado mentalmente cada detalhe, lembrado de uma pequena falha e concluído que seu desempenho foi pior do que realmente havia sido.

Esse tipo de experiência é comum. Depois de tomar uma decisão, muitas pessoas continuam analisando o que fizeram. Esse intervalo entre agir e avaliar o próprio desempenho pode ajudar a perceber melhor a realidade, mas também pode aumentar dúvidas e inseguranças.

Um estudo publicado em 2026 investigou justamente essa relação. Os pesquisadores analisaram como sintomas de ansiedade e gênero se associavam à confiança que as pessoas tinham em suas próprias respostas. O objetivo não era saber apenas quem acertava mais, mas entender como cada participante avaliava o próprio desempenho.

Os resultados sugerem que a baixa confiança pode ter origens diferentes. Em pessoas com mais sintomas de ansiedade, o tempo adicional para refletir pareceu intensificar uma avaliação negativa. Já a diferença de confiança observada entre mulheres e homens diminuiu quando as pessoas tiveram mais tempo para considerar seu desempenho.

Esses achados ajudam a compreender por que “pensar mais” não produz sempre o mesmo resultado. Em algumas situações, a reflexão organiza as informações. Em outras, abre espaço para que a dúvida se torne cada vez mais convincente.

O que significa confiar na própria capacidade?

Confiança não é apenas uma sensação agradável de segurança. Ela também funciona como uma estimativa. Quando alguém termina uma tarefa e diz “acho que acertei”, está tentando calcular a probabilidade de sua resposta estar correta.

Essa avaliação pode ser razoavelmente precisa, mas também pode sofrer distorções. Uma pessoa pode acertar uma questão e ainda assim acreditar que errou. Outra pode cometer um erro e permanecer muito segura de que estava certa.

A capacidade de avaliar o próprio desempenho é chamada de metacognição. Em termos simples, é a possibilidade de observar o próprio funcionamento mental, como se fosse necessário sair por alguns instantes do palco para avaliar a qualidade da apresentação.

Essa avaliação é importante no cotidiano. Ela influencia as tarefas que aceitamos, as decisões que tomamos, a disposição para aprender algo novo e a maneira como lidamos com erros e acertos.

Quando a confiança fica muito abaixo do desempenho real, a pessoa pode evitar desafios, pedir confirmações repetidas ou deixar de reconhecer competências que de fato possui.

Como a ansiedade pode alterar essa avaliação?

A ansiedade costuma aumentar a atenção voltada para ameaças, riscos e possíveis erros. Em certa medida, essa vigilância pode ser útil. Ela ajuda a antecipar problemas e a se preparar para situações exigentes.

O problema aparece quando o sistema de alerta permanece ativado mesmo depois que a tarefa terminou. Nesse momento, a pessoa pode continuar procurando indícios de falha, mesmo quando as informações disponíveis não justificam tamanha preocupação.

Imagine alguém que envia uma mensagem importante. Inicialmente, acredita que o texto está adequado. Alguns minutos depois, começa a reler cada frase. Uma palavra parece ambígua, uma vírgula parece inadequada e uma resposta do destinatário é interpretada como sinal de desagrado. A reflexão, que poderia trazer segurança, passa a funcionar como uma lente que aumenta as imperfeições.

Foi algo semelhante que o estudo procurou investigar. Os participantes realizavam tarefas e, depois, informavam o quanto confiavam em suas respostas. O intervalo entre a decisão e a avaliação da confiança era medido.

Entre as pessoas com mais sintomas de ansiedade, quanto mais tempo levavam para avaliar a própria resposta, maior tendia a ser a redução da confiança. Isso não significa que toda reflexão seja prejudicial, nem que pessoas ansiosas sempre avaliem mal seu desempenho. O resultado indica uma tendência observada em tarefas experimentais.

Pensar mais sempre melhora a decisão?

Não necessariamente. Em algumas situações, o tempo adicional permite reunir informações que haviam passado despercebidas. A pessoa pode perceber que sua primeira impressão era excessivamente negativa e ajustar a avaliação com base em dados mais concretos.

Em outras situações, especialmente quando há ansiedade, o tempo extra pode ser preenchido por dúvidas, lembranças de falhas anteriores e previsões negativas. Em vez de acrescentar informações novas, a mente repete as mesmas preocupações sob diferentes formas.

É como consultar várias vezes um mapa sem encontrar uma nova estrada. A princípio, a consulta parece prudente. Depois de algum tempo, porém, ela apenas aumenta a sensação de que o caminho é incerto.

O estudo encontrou padrões diferentes. A confiança associada aos sintomas de ansiedade diminuiu à medida que aumentava o tempo de reflexão. Já a diferença de confiança relacionada ao gênero diminuiu com o passar do tempo.

Essa distinção é importante porque mostra que a baixa confiança não tem necessariamente uma única origem. O mesmo resultado aparente, como acreditar menos na própria capacidade, pode ser produzido por mecanismos diferentes.

O que o estudo observou sobre gênero?

A pesquisa encontrou, em média, níveis de confiança mais baixos entre mulheres do que entre homens nas tarefas analisadas. No entanto, essa diferença diminuiu quando as participantes tiveram mais tempo para avaliar seu desempenho.

É importante interpretar esse resultado com cuidado. O estudo não demonstra que todas as mulheres são menos confiantes, nem que todos os homens são mais confiantes. Também não prova que o gênero, isoladamente, cause uma diferença de confiança.

A própria pesquisa sugere que fatores sociais podem participar desse processo. Ao longo da vida, pessoas de diferentes gêneros podem receber mensagens distintas sobre competência, autoridade, risco e possibilidade de erro. Essas mensagens podem influenciar a maneira como cada indivíduo interpreta suas próprias respostas.

Nesse contexto, a baixa confiança pode aparecer inicialmente como uma espécie de filtro aprendido. A pessoa responde, mas demora a reconhecer que sua resposta pode estar correta. Quando recebe mais tempo para examinar as evidências concretas do próprio desempenho, esse filtro pode perder força.

O estudo observou justamente essa possibilidade. Com mais tempo para avaliar a tarefa, a diferença de confiança entre mulheres e homens diminuiu. Isso sugere que, nesse caso, a reflexão adicional pode ajudar a corrigir uma impressão inicial desfavorável.

O que são os “mecanismos computacionais” estudados?

A expressão pode parecer distante da vida cotidiana, mas a ideia é relativamente simples. Os pesquisadores criaram um modelo matemático para estimar como a confiança vai sendo formada ao longo do tempo.

O modelo considera que, depois de tomar uma decisão, o cérebro continua reunindo sinais a favor ou contra aquela resposta. Esses sinais não são necessariamente conscientes. Podem incluir a lembrança de detalhes da tarefa, a sensação de familiaridade, a percepção de dificuldade e a avaliação de possíveis erros.

A cada instante, essas informações podem aumentar ou diminuir a confiança. O modelo permite investigar se a pessoa está acumulando evidências de modo equilibrado ou se está acrescentando um peso excessivo aos sinais negativos.

No caso dos sintomas de ansiedade, os resultados indicaram uma tendência a acumular evidências negativas sobre o próprio desempenho depois da decisão. Em outras palavras, o tempo adicional pareceu favorecer uma interpretação cada vez mais desfavorável.

No caso da diferença relacionada ao gênero, o modelo apontou principalmente para uma alteração no critério inicial usado para julgar a própria capacidade. Com mais tempo e mais evidências sobre o desempenho, esse critério poderia ser ajustado.

Essa diferença pode ser traduzida de maneira simples. Na ansiedade, a reflexão parece acrescentar novos motivos para duvidar. Na diferença relacionada ao gênero, a dúvida inicial parece perder força quando a pessoa examina melhor as evidências disponíveis.

Por que a ansiedade pode transformar reflexão em ruminação?

Refletir é tentar compreender uma situação. Ruminar é permanecer preso a ela, repetindo perguntas e cenários sem produzir uma conclusão útil.

Na reflexão, a pessoa pode perguntar o que aconteceu, quais informações estão disponíveis e o que pode ser feito a seguir. Na ruminação, o pensamento costuma retornar aos mesmos pontos, geralmente com foco em erros, ameaças e possíveis consequências negativas.

A diferença nem sempre é fácil de perceber. Ambas podem começar com uma pergunta legítima, como “será que fiz isso corretamente?”. A reflexão procura uma resposta. A ruminação continua perguntando mesmo depois que as informações relevantes já foram consideradas.

O estudo não avaliou diretamente todos os pensamentos que passavam pela mente dos participantes. Por isso, não é possível afirmar que a ruminação tenha sido medida de maneira direta. Ainda assim, os resultados são compatíveis com a hipótese de que a ansiedade favoreça uma acumulação gradual de avaliações negativas durante o tempo de reflexão.

O que podemos aprender com esses resultados?

Uma das principais lições é que a confiança não deve ser tratada como uma característica fixa. Ela pode mudar conforme o estado clínico, a experiência anterior, o contexto social, a dificuldade da tarefa e a maneira como a pessoa interpreta as informações.

Outra lição é que a autocrítica nem sempre produz uma avaliação mais precisa. Muitas pessoas acreditam que desconfiar de si mesmas é uma forma de evitar erros. No entanto, quando a dúvida passa a selecionar apenas evidências negativas, ela deixa de funcionar como uma revisão equilibrada.

Para quem apresenta sintomas de ansiedade, pode ser útil observar se o tempo adicional de análise está trazendo informações novas ou apenas repetindo preocupações antigas. Essa observação não é uma técnica para substituir avaliação médica, mas pode ajudar a reconhecer um padrão de funcionamento.

Em algumas decisões simples, registrar a resposta inicial antes de começar a revisá-la pode permitir uma comparação posterior entre a primeira impressão e os fatos observáveis. Também pode ser útil separar três elementos que costumam se misturar, o que a pessoa sabe, o que imagina e o que teme.

Já em situações marcadas por insegurança aprendida, oferecer tempo e evidências concretas pode favorecer uma avaliação mais justa das próprias capacidades. Reconhecer fatos objetivos, resultados alcançados e retornos confiáveis pode ajudar a reduzir o peso de uma impressão inicial negativa.

O que esse estudo não permite concluir?

A pesquisa utilizou tarefas experimentais de escolha e avaliação de confiança. Isso é diferente de investigar decisões complexas do cotidiano, como aceitar uma promoção, encerrar uma relação, mudar de cidade ou iniciar um tratamento.

Além disso, os dados foram analisados a partir de estudos anteriores e de participantes recrutados pela internet. Os resultados podem não representar todas as faixas etárias, culturas, identidades de gênero ou condições clínicas.

Também não é possível afirmar que o estudo tenha identificado uma causa definitiva para a baixa confiança. Os pesquisadores encontraram associações e utilizaram modelos matemáticos para testar explicações plausíveis. Esses modelos ajudam a compreender os dados, mas não equivalem a uma observação direta de cada processo cerebral.

Outro ponto importante é que a pesquisa avaliou sintomas de ansiedade, e não necessariamente pessoas com um diagnóstico médico. Ter algum nível de ansiedade não significa apresentar um transtorno. Da mesma forma, uma baixa confiança ocasional não indica, por si só, a existência de uma condição psiquiátrica.

Quando a falta de confiança merece atenção?

Sentir insegurança antes de uma tarefa difícil faz parte da experiência humana. A preocupação merece atenção maior quando começa a limitar a vida, impedir novas experiências ou consumir uma quantidade excessiva de tempo.

Alguns sinais incluem evitar constantemente situações por medo de falhar, revisar tarefas de maneira interminável, buscar confirmação repetida, não conseguir reconhecer resultados positivos e sentir que qualquer erro confirma uma incapacidade permanente.

Também é importante observar sintomas associados, como preocupação persistente, tensão, irritabilidade, dificuldade para dormir, cansaço, alterações da concentração e sofrimento que interfere no trabalho, nos estudos ou nas relações.

Esses sinais não permitem concluir sozinhos a existência de um diagnóstico. Eles indicam que pode ser importante conversar com um médico para compreender o conjunto da experiência, sua intensidade, duração, contexto e possíveis formas de cuidado.

Conclusão

O estudo analisado sugere que a baixa confiança pode se formar por caminhos diferentes. Em pessoas com mais sintomas de ansiedade, o tempo adicional para refletir sobre uma decisão parece favorecer o acúmulo de evidências negativas e aumentar a dúvida sobre o próprio desempenho.

Já a diferença de confiança observada entre mulheres e homens diminuiu quando houve mais tempo para avaliar as evidências da tarefa. Esse resultado reforça a importância de não tratar a insegurança como uma característica fixa ou como sinal de menor capacidade.

A pesquisa também mostra que pensar mais nem sempre significa avaliar melhor. A reflexão pode organizar informações, mas também pode ampliar a dúvida quando é conduzida por preocupação e atenção seletiva aos erros.

Uma avaliação médica individualizada é importante quando a ansiedade, a autocrítica ou a falta de confiança causam sofrimento, limitam escolhas ou interferem no funcionamento cotidiano.

Artigo citado: Katyal S, Fleming SM. Gender and anxiety reveal distinct computational sources of underconfidence. Psychological Medicine. 2026;56:e17. doi:10.1017/S0033291725102808

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