Há algo de muito singular no caminho daqueles que procuram um médico psiquiatra.
Nem sempre chegam com feridas visíveis. Às vezes, o que os traz até nós não é um machucado que se possa apontar, mas a sensação de que algo se deslocou dentro da mente, das emoções ou da própria vida. Muitas vezes, ao tentar descrever o que sentem, suas palavras parecem confusas até para eles mesmos. É como se estivessem em um mundo diferente, frequentemente assustador.
É então que penso na imagem da Toca do Coelho.
Na história de Alice no País das Maravilhas, escrita por Lewis Carroll, tudo começa com uma menina curiosa, imaginativa e inquieta, que vê passar, no mundo real, um coelho branco apressado, usando colete e relógio. Intrigada, ela decide segui-lo e acaba caindo em uma toca profunda. Mas aquela não é uma toca qualquer. É uma espécie de porta de entrada para outro mundo.
Ali, as leis da lógica mudam. Os tamanhos se transformam. O tempo parece brincar com os ponteiros. As identidades se confundem. Nada mais é como antes. Alice tenta compreender e se adaptar, mas encontra ainda mais confusão, entre imagens enigmáticas, criaturas estranhas e desafios aparentemente sem sentido. Sente-se repetidamente sem chão, como se estivesse dentro de um sonho.
Quem passa por uma experiência de sofrimento psíquico intenso pode sentir algo semelhante. A percepção de si, do mundo e da passagem do tempo começa a se embaralhar. Aquilo que antes parecia familiar pode se tornar estranho. Atividades simples passam a exigir esforço. As palavras nem sempre dão conta de traduzir o que acontece por dentro.
A vocação da psiquiatria nasce exatamente aí, na disposição de estender a mão a quem está dentro da Toca do Coelho.
Não para puxá-lo à força para fora. Nem para afirmar que aquele mundo não existe. Mas para entrar com cuidado nesse território interno e, com paciência e perseverança, ajudar a reorganizar os caminhos.
A psiquiatria não é apenas uma ciência do cérebro. É também uma prática médica que exige escuta, presença e capacidade de reconhecer o sofrimento humano em sua complexidade.
Ser psiquiatra, para mim, é entrar no cenário surreal em que o outro caiu e oferecer uma presença segura. É reconhecer que, muitas vezes, quem chega está assustado, desorientado e sem palavras. É compreender que o primeiro passo do cuidado pode ser simplesmente permitir que essa pessoa perceba que não está mais sozinha.
O nome dessa companhia é acolhimento.
Com o tempo e o cuidado adequado, é possível que a pessoa encontre uma nova forma de compreender o que viveu dentro da Toca. Às vezes, retorna mais forte e mais consciente da própria profundidade humana. Outras vezes, mesmo marcada pela experiência, volta com ferramentas valiosas, como linguagem, perspectiva e capacidade de reconhecer os próprios limites.
A psiquiatria não existe para apagar sintomas como quem limpa uma ferida superficial. Seu propósito é auxiliar na travessia da vida interior e contribuir para o resgate da inteireza, da autonomia e da possibilidade de seguir adiante.
Se você sente que caiu em um lugar estranho dentro de si, saiba que pode haver caminhos de saída da Toca do Coelho.
E, acredite, há quem possa caminhar com você.