Você sente que as pessoas “desaprenderam” a andar em público?
Sair de casa para um shopping, aeroporto ou parque tornou-se um teste de paciência. Grupos que ocupam a largura total da calçada, paradas súbitas em gargalos de fluxo e “paredões humanos” que ignoram o entorno são cenas cada vez mais comuns. Para além da queixa sobre a falta de etiqueta, o que estamos testemunhando é uma patologia social pós-pandemia.
O fenômeno da invasão passiva possui raízes profundas na neurobiologia e na formação histórica brasileira. Abaixo, elenco quatro pilares para entender essa nova dinâmica.
A ocitocina seletiva e o “bunker” afetivo
A ciência moderna desmistificou a ocitocina como o “hormônio do amor universal”. Na realidade, ela promove o favoritismo intragrupal. Em momentos de lazer, ela hiperconecta a “tribo” de família ou amigos, mas desliga a empatia em relação ao “estrangeiro”. O grupo sente-se em sua extensão doméstica e, para eles, quem tenta passar é apenas um ruído externo de uma tribo desconhecida.
Narcisismo territorial e a “cegueira de figurante”
A lógica das redes sociais, onde somos os protagonistas absolutos, transpôs-se para o espaço físico. O indivíduo passa a operar como se o mundo fosse seu cenário de performance. Nesse contexto, os outros transeuntes deixam de ser seres humanos com destinos próprios e tornam-se obstáculos inanimados em uma narrativa de lazer individual.
Atrofia da proxêmica e a “visão de túnel”
A proxêmica é o campo que estuda o uso do espaço na comunicação. O isolamento atrofiou nossa consciência periférica e, somado ao uso ubíquo de fones de ouvido, criamos uma indiferença tátil. O raciocínio subjacente é simples. Se não ouço nem vejo o outro em meu “túnel”, ele simplesmente não existe.
O patrimonialismo do “eu cheguei primeiro”
O Brasil carrega uma herança extrativista que molda como tratamos o bem comum. O espaço público é visto como um recurso a ser explorado para o benefício próprio, e não preservado. É o extrativismo do conforto. Ocupa-se o centro do corredor por conveniência imediata, ignorando a fluidez coletiva. É a lógica da terra de ninguém, onde o domínio pertence a quem fincar o pé primeiro.
O diagnóstico final
Vivemos hoje em um “arquipélago de tribos”, onde o mar entre elas, o espaço comum, é tratado como terra hostil ou irrelevante.
A civilidade exige baixo contexto, com regras explícitas e respeito ao fluxo. No entanto, no Brasil de alto contexto, onde a relação pessoal e o “jeitinho” prevalecem sobre a norma, o fluxo morre nas mãos do ego.
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Redigido por: Dr. Cyro Masci
Médico psiquiatra · CREMESP 39126 · RQE 9738
Atua com abordagem biopsicossocial e multimodal. Autor dos livros Síndrome do Pânico: Psiquiatria com abordagem médica integrativa, Biostress – Novos caminhos para o equilíbrio e a saúde e Perguntas e Respostas sobre Ansiedade: Informações Práticas e Objetivas. Já lecionou na Faculdade de Ciências Médicas de Santos — UNILUS — e na Universidade Metodista.
Revisado pelo autor. Última atualização em: 30/03/2026.



