Os efeitos de uma “vida paralela”
Você já se pegou pensando em como seria sua vida se aquele relacionamento não tivesse acabado, ou se tivesse nascido em uma família mais acolhedora, ou ainda, se tivesse conseguido aquele emprego dos sonhos? Essa fantasia é como criar uma “vida paralela”, que traz consequências emocionais. Ela é como se aquecer com um cobertor feito de fios invisíveis de um passado não vivido, um estado mental que nos captura.
Esse cobertor de possibilidades e arrependimentos não apenas influencia nossa mente, mas também deixa marcas em nosso corpo e sociedade.
Os efeitos de uma “vida paralela”
A mente humana é uma tecelã hábil, entrelaçando realidades vividas com sonhos passados. O “e se…” se torna uma miragem que nos atrai para um ciclo interminável, onde o arrependimento reina supremo. Essa tendência, o pensamento que vai contra a realidade, serve para nos confrontar com o que poderia ter sido, criando uma vida de memórias e cenários distorcidos.
Quando nos fixamos por muito tempo nessa vida imaginária, nos expomos a um império de arrependimentos, onde, paradoxalmente, tentamos ter controle sobre aquilo que não podemos mais mudar. Assim, nossa percepção distorce-se e se distancia da realidade, envenenando a mente com uma nostalgia que nos prende.
O corpo sofre
Enquanto a mente vagueia por esses caminhos de possibilidades não vividas, o corpo também começa a carregar o peso silencioso dessas fantasias paralelas. Ao revisitarmos constantemente eventos passados, o corpo libera cortisol, um hormônio que exacerba sintomas de ansiedade e depressão. Isso não só enfraquece o sistema imunológico, mas também desencadeia uma resposta fisiológica ao estresse que nos imobiliza. Cada “e se” é como um toque de um sino que paralisa o corpo, aprisionando-nos em um sonho febril de possibilidades.
É como se o corpo se tornasse um veleiro à deriva em um mar de passado inexplorado, incapaz de ajustar suas velas, preso em redemoinhos de emoções desencadeadas por ilusões.
Ligação social e isolamento
Em um plano social, essa introspecção exacerbada pode causar fissuras nos laços que mantemos. Quanto mais navegamos por oceanos de possibilidades imaginadas, menos presentes estamos para a tripulação ao nosso redor. A dança do “poderia ter sido” nos afasta de conversas significativas, de conexões verdadeiras, transformando o agora em um campo estéril de interações fugazes.
Nossos relacionamentos, portanto, tornam-se um palco onde fantasmas do passado ensaiam eternamente, enquanto a peça real permanece sem espectadores.
Estratégias para reintegrar o presente
Para transformar arrependimento em ação e reintegrar o presente, considere as seguintes estratégias eficazes:
- Reescreva o roteiro mental: Transforme cada “E se eu tivesse…” em “Como posso a partir de agora…?”, canalizando a energia do arrependimento para a ação.
- Rituais de encerramento: Crie um adeus simbólico ao passado escrevendo cartas a ele e, em seguida, fechando o ciclo por meio de atos concretos de despedida.
- Retome o controle sobre o presente: Cada passo — cada escolha do dia a dia, na ação, na comunicação feita de modo consciente e proposital — reafirma sua capacidade de controle sobre o presente. Estas ações reprogramam o cérebro, fortalecendo a autoeficácia.
- Planeje um novo futuro: Comece a criar uma nova fantasia, de um novo futuro baseado em sua vida real atual, e em seguida escreva os passos necessários para ir ao encontro de sua nova vida real.
Uma citação marcante de Jean-Paul Sartre captura o cerne da discussão: “A questão não é o que fizeram de você, mas o que você fez do que fizeram de você.” Isso nos lembra que, embora o passado possa tecer fantasias mentais, somos nós que decidimos como iremos moldar nosso futuro.
O passado pode até criar tecidos mentais de fantasia, mas podemos criar novos padrões. Temos a capacidade de criar um legado composto do “agora”, aprendendo com o que aconteceu e com o que fomos, mas não aprisionados por esse passado.
Lembre-se de que o destino não está em uma linha do tempo irreversível, mas na determinação das escolhas de cada novo momento.
Portanto, sugiro modificar a pergunta de “o que poderia ter sido?”, para “o que posso criar, o que pode vir a ser, a partir de agora?”.

Redigido por: Dr. Cyro Masci
Médico psiquiatra · CREMESP 39126 · RQE 9738
Atua com abordagem biopsicossocial e multimodal. Autor dos livros Síndrome do Pânico: Psiquiatria com abordagem médica integrativa, Biostress – Novos caminhos para o equilíbrio e a saúde e Perguntas e Respostas sobre Ansiedade: Informações Práticas e Objetivas. Já lecionou na Faculdade de Ciências Médicas de Santos — UNILUS — e na Universidade Metodista.
Revisado pelo autor. Última atualização em: 20/03/2026.



