Pensar demais ajuda ou prejudica? O que a matemática do cérebro revela sobre ansiedade e autoconfiança

Quem nunca saiu de uma reunião de trabalho, de uma prova importante ou até de uma conversa delicada pensando: “será que eu fui bem?”. Para algumas pessoas, essa dúvida passageira se transforma em uma bola de neve. Para outras, basta respirar fundo por alguns segundos para perceber que o resultado foi satisfatório.

A sensação de insegurança e de não se achar bom o bastante é figurinha carimbada nos consultórios de saúde mental. Na psicologia, também já era bem conhecido o fato de que mulheres costumam reportar menos confiança em suas decisões do que homens em testes de laboratório, mesmo quando acertam exatamente as mesmas tarefas.

Até recentemente, parecia que toda insegurança nascia do mesmo lugar. Mas um estudo publicado em 2026 no periódico científico Psychological Medicine, liderado pelos pesquisadores Sucharit Katyal e Stephen M. Fleming, mostrou algo surpreendente: o cérebro de uma pessoa ansiosa e o cérebro influenciado por questões de gênero seguem caminhos opostos quando o assunto é autoconfiança. E o segredo dessa diferença está no tempo.

O tribunal da mente e o relógio

Para entender esse mistério, os cientistas recorreram à metacognição, que nada mais é do que a capacidade que temos de pensar sobre o nosso próprio pensamento. É o nosso “juiz interno”, aquele que avalia se tomamos uma decisão certa ou errada.

Ao todo, 1.447 voluntários participaram de testes de memória e percepção visual. Logo após escolherem uma resposta, eles precisavam dizer o quão confiantes estavam no que tinham acabado de fazer. A sacada dos pesquisadores foi cronometrar com precisão de milissegundos quanto tempo cada pessoa levava entre terminar a tarefa e declarar o seu grau de certeza.

Os resultados mostraram que o tempo funciona como uma faca de dois gumes, dependendo de quem está segurando o cronômetro:

  • Na ansiedade: quanto mais tempo o participante ansioso tinha para pensar após tomar uma decisão, mais a sua confiança despencava. Dar espaço para remoer o ocorrido só aumentava a sensação de fracasso.
  • No gênero: as mulheres demonstravam menos confiança do que os homens quando precisavam responder no calor do momento, de forma instantânea. No entanto, quando tinham alguns segundos extras para avaliar o que fizeram com calma, a insegurança ia evaporando. No tempo mais longo de reflexão, a diferença entre homens e mulheres simplesmente sumiu.

O filtro sujo contra o freio de mão puxado

Para explicar esse contraste, os cientistas usaram modelos matemáticos que funcionam como uma lente de aumento sobre as engrenagens mentais. E é aqui que as metáforas ajudam a traduzir o que acontece dentro da cabeça.

No caso da ansiedade, o cérebro age como um filtro com defeito que só deixa passar água suja. A cada segundo extra em que a pessoa ansiosa fica pensando no próprio desempenho, seu cérebro busca ativamente justificativas para acreditar que errou. É a anatomia exata da ruminação: o tempo não clareia as ideias, apenas acumula evidências contra si mesmo.

Já no caso do gênero, o mecanismo é parecido com tentar acelerar um carro com o freio de mão ligeiramente puxado. Por conta de pressões culturais e estereótipos sociais enraizados há décadas, muitas mulheres entram na tarefa com um ponto de partida mais cauteloso e autocrítico. Esse freio está lá no primeiro segundo. Contudo, quando a motorista ganha tempo para olhar o painel com calma, examinar a estrada e notar que o carro está funcionando perfeitamente, ela solta o freio. Os fatos reais da competência vencem a sensação de hesitação inicial.

Como usar isso a favor do seu bem-estar no dia a dia

Essa descoberta traz ensinamentos valiosos para a rotina e para a saúde mental:

  • Se você lida com ansiedade: cuidado com a armadilha do pós-evento. Sabe aquela vontade de repassar mentalmente tudo o que você falou numa apresentação ou mensagem? Para o ansioso, isso quase sempre gera distorção. Nesses momentos, confiar mais na primeira impressão ou mudar de foco logo após terminar a atividade ajuda a evitar que a mente comece a fabricar defeitos imaginários.
  • Para enfrentar a síndrome da impostora: se você sente que a sua resposta imediata a um novo desafio é duvidar de si mesma, não se desespere nem tome decisões precipitadas sob essa impressão inicial. Dê a si mesma alguns minutos de pausa para olhar os dados concretos do seu trabalho. O tempo de reflexão ponderada é o melhor remédio para neutralizar inseguranças automáticas criadas por exigências sociais.

Nem toda insegurança nasce da mesma raiz. Entender se o seu freio vem do excesso de ruminação ou de um hábito cultural inicial é o primeiro passo para calibrar o seu juiz interno e enxergar a sua real capacidade com muito mais justiça.

Fonte citada: Katyal S, Fleming SM. Gender and anxiety reveal distinct computational sources of underconfidence. Psychological Medicine. 2026;56:e17. doi:10.1017/S0033291725102808

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